{"id":1494,"date":"2014-06-05T19:45:23","date_gmt":"2014-06-05T22:45:23","guid":{"rendered":"https:\/\/ricardoguerra.tv\/?p=1494"},"modified":"2024-04-24T16:24:04","modified_gmt":"2024-04-24T19:24:04","slug":"olimpiadas-e-copa-do-mundo-o-que-estao-fazendo-com-o-dinheiro-dos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ricardoguerra.tv\/index.php\/2014\/06\/05\/olimpiadas-e-copa-do-mundo-o-que-estao-fazendo-com-o-dinheiro-dos-brasileiros\/","title":{"rendered":"Olimp\u00edadas e Copa do Mundo: O que est\u00e3o fazendo com o dinheiro dos brasileiros?"},"content":{"rendered":"<p class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 dvANKb \"><strong><span lang=\"PT-BR\">Nestas duas entrevistas, os professores Andrew Zimbalist e Robert Baade, respectivamente, falam em detalhe sobre o real impacto econ\u00f4mico das Olimp\u00edadas e da Copa do Mundo no Brasil e os resultados em diversos pa\u00edses que j\u00e1 foram sede destes eventos.<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_1504\" aria-describedby=\"caption-attachment-1504\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1504\" src=\"https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/T6YWQFLY4JJ7RCH2DLIAAQ2ITQ-300x180.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/T6YWQFLY4JJ7RCH2DLIAAQ2ITQ-300x180.jpg 300w, https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/T6YWQFLY4JJ7RCH2DLIAAQ2ITQ-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/T6YWQFLY4JJ7RCH2DLIAAQ2ITQ-768x461.jpg 768w, https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/T6YWQFLY4JJ7RCH2DLIAAQ2ITQ.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1504\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Estad\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"styles__MultiParagraphAdStyled-sc-1yb8ue6-0 dArwXb\">\n<div class=\"paragraph\">\n<p><strong><span lang=\"PT-BR\">O Professor Andrew Zimbalist trabalha no Departamento de Economia do\u00a0<em>Smith College<\/em>, em Massachussets, nos Estados Unidos. Ele \u00e9 uma autoridade reconhecida mundialmente na \u00e1rea da economia esportiva e um especialista independente que analisa o impacto econ\u00f4mico do turismo esportivo em geral, do sediamento de mega-eventos esportivos e da constru\u00e7\u00e3o de diversos tipos de infra-estruturas esportivas. O economista tem mais de vinte livros publicados e j\u00e1 contribuiu para in\u00fameras publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, com artigos e estudos nas \u00e1reas de sistemas econ\u00f4micos comparativos, desenvolvimento econ\u00f4mico e economia de esportes. O professor Zimbalist faz parte do conselho editorial de diversas publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dentro da \u00e1rea da economia. Seus artigos e opini\u00f5es tamb\u00e9m j\u00e1 foram publicados em alguns dos meios de comunica\u00e7\u00e3o mais importantes, reconhecidos em todo o mundo, incluindo o\u00a0<em>New York Times<\/em>, o\u00a0<em>Washington Post<\/em>\u00a0e o jornal\u00a0<em>USA Today<\/em>. O economista j\u00e1 testemunhou para v\u00e1rias comiss\u00f5es governamentais sobre diversos temas, tais como o impacto econ\u00f4mico dos subs\u00eddios p\u00fablicos nas constru\u00e7\u00f5es de infra-estruturas esportivas. Em in\u00fameras ocasi\u00f5es, testemunhou para o congresso norte-americano. Nesta entrevista, o Dr. Zimbalist fala em detalhe de muitas destas quest\u00f5es, incluindo o real impacto econ\u00f4mico das Olimp\u00edadas e da Copa do Mundo no Brasil e os resultados em diversos pa\u00edses que j\u00e1 foram sede destes eventos.<\/span><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_1507\" aria-describedby=\"caption-attachment-1507\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1507\" src=\"https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LRFQKM6N6BIQZHXAYI7FHPIM6A-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LRFQKM6N6BIQZHXAYI7FHPIM6A-300x200.jpg 300w, https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LRFQKM6N6BIQZHXAYI7FHPIM6A-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LRFQKM6N6BIQZHXAYI7FHPIM6A-768x512.jpg 768w, https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LRFQKM6N6BIQZHXAYI7FHPIM6A-550x367.jpg 550w, https:\/\/ricardoguerra.tv\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LRFQKM6N6BIQZHXAYI7FHPIM6A.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1507\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Estad\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong><span lang=\"PT-BR\">O economista Robert Baade \u00e9 professor de Economia e Finan\u00e7as na<\/span><\/strong><strong><span lang=\"PT-BR\"><em>\u00a0Lake Forest University<\/em><\/span><span lang=\"PT-BR\">\u00a0(estado de Illinois, nos Estados Unidos). Ele \u00e9 reconhecido internacionalmente na \u00e1rea da economia esportiva. Sua pesquisa tem como foco uma variedade de temas relacionados com as finan\u00e7as p\u00fablicas, com as consequ\u00eancias econ\u00f4micas do sediamento de megaeventos esportivos, bem como a economia referente ao esporte profissional. Seus estudos podem ser encontrados em diversas publica\u00e7\u00f5es academicas na \u00e1rea da economia. Baade tamb\u00e9m j\u00e1 foi citado extensivamente por diversas fontes de not\u00edcias de renome, incluindo o\u00a0<em>New York Times<\/em>, o\u00a0<em>Huffington Post<\/em>\u00a0 e o canal de not\u00edcias NBC.\u00a0<\/span>Seu artigo &#8220;The Quest for the Cup: Assessing the Economic Impact of the World Cup&#8221; vai ser publicado no livro\u00a0<em>Megaproject Planning and Management: Essential Readings<\/em>.<\/strong><\/p>\n<div>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: left;\"><strong>Pergunta Blog: Eventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas s\u00e3o taxados como chamarizes para milhares de turistas, e se os visitantes t\u00eam experi\u00eancias positivas, a tend\u00eancia continua no futuro. O que a pesquisa realmente demonstra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades que j\u00e1 sediaram esses eventos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0O que acontece com frequ\u00eancia durante os Jogos Ol\u00edmpicos e a Copa do Mundo \u00e9 que os turistas regulares, que viriam visitar o pa\u00eds num ano em que tais eventos esportivos n\u00e3o estivessem ocorrendo, acabam evitando ir para aquele lugar. Na realidade, os turistas das Olimp\u00edadas e da Copa do Mundo muitas vezes substituem e interrompem os fluxos tur\u00edsticos habituais de uma localidade. Al\u00e9m disso, em muitas cidades, um n\u00famero significativo de residentes locais acaba se deslocando para outros lugares, para n\u00e3o lidar com o inc\u00f4modo ocasionado pelo evento. O n\u00famero de turistas que sa\u00edram da China em 2008, por exemplo, aumentou significativamente. Muitos turistas e moradores locais n\u00e3o querem lidar com o tr\u00e2nsito, com \u00e1reas congestionadas, com as quest\u00f5es relacionadas com a seguran\u00e7a e com os pre\u00e7os elevados. Portanto, n\u00e3o \u00e9 incomum que o montante total do turismo tenda a diminuir durante os Jogos Ol\u00edmpicos e a Copa do Mundo. Em geral, se observarmos exemplos recentes, \u00e9 dif\u00edcil esperar um aumento real no n\u00famero de visitantes em um pa\u00eds durante a Copa do Mundo ou as Olimp\u00edadas. O n\u00famero de turistas que se encontrava em Londres durante os Jogos Ol\u00edmpicos em julho e agosto de 2012, por exemplo, foi menor do que o que se encontrava no ano anterior, quando n\u00e3o houve nenhum mega-evento esportivo. E a mesma tend\u00eancia vem sendo observada em v\u00e1rios outros pa\u00edses e cidades que foram sedes. Existem alguns exemplos de um pequeno aumento de turismo, mas \u00e9 insignificante. O ponto mais importante \u00e9 que um aumento significativo do turismo na verdade n\u00e3o ocorre.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Quando Atlanta sediou os Jogos Ol\u00edmpicos em 1996, a cidade fez algumas mudan\u00e7as importantes na infraestrutura do seu sistema de transporte regional e tamb\u00e9m construiu a Vila Ol\u00edmpica, que eventualmente foi utilizada como dormit\u00f3rio para estudantes de uma universidade local. Durante o mesmo per\u00edodo, o reconhecido\u00a0<em>Centennial Park<\/em>, um grande espa\u00e7o p\u00fablico, tamb\u00e9m se tornou um legado duradouro para a popula\u00e7\u00e3o daquela cidade. O Brasil tem exemplos de projetos de infraestrutura que poderiam ter um legado duradouro e de import\u00e2ncia para os seus cidad\u00e3os ap\u00f3s o t\u00e9rmino destes eventos esportivos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Estou seguro de que alguns dos investimentos feitos nas \u00e1reas do transporte, do desenvolvimento de estradas e na expans\u00e3o dos aeroportos ter\u00e3o certa utilidade, mas apenas uma pequena parcela deles! Seria importante lembrar que estamos falando aqui de gastar uma soma que pode rondar uns 15 a 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por cada um desses eventos, e isso \u00e9 um disp\u00eandio impressionante de recursos. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 realmente se um pa\u00eds consegue 15 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em melhorias a longo prazo nas diversas infraestruturas que est\u00e3o sendo constru\u00eddas, porque eu duvido muito que isso ocorra. Na verdade, a quest\u00e3o mais importante \u00e9 o quanto se estar\u00e1 desperdi\u00e7ando ao gastar essa quantia exorbitante. Por que algu\u00e9m precisa gastar 40 bilh\u00f5es na Copa do Mundo e nos Jogos Ol\u00edmpicos, a fim de obter 15 bilh\u00f5es em melhorias de infraestruturas em um pa\u00eds que \u00e9 afligido por escassez de recursos, polui\u00e7\u00e3o, pobreza e n\u00edveis grotescos de desigualdade? Por que estamos desperdi\u00e7ando cerca de 10 a 15 bilh\u00f5es de d\u00f3lares na constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas esportivas para esses eventos que, no final das contas, n\u00e3o ser\u00e3o produtivas ou n\u00e3o ter\u00e3o qualquer utilidade para a maioria da popula\u00e7\u00e3o e para o desenvolvimento do pa\u00eds? Por que um pa\u00eds precisa gastar entre 15 a 20 bilh\u00f5es em cada um desses eventos para obter um parque p\u00fablico ou um cal\u00e7ad\u00e3o para as pessoas caminharem no seu dia de lazer? De fato, essas sim s\u00e3o as grandes e verdadeiras quest\u00f5es que devem ser abordadas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<strong>Pergunta Blog: Em sua opini\u00e3o, quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias econ\u00f4micas para o Brasil ao sediar estes eventos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Em geral, a pesquisa sobre esta quest\u00e3o indica que \u00e9 muito dif\u00edcil obter benef\u00edcios econ\u00f4micos com esse tipo de investimentos. A \u00fanica chance de obter algum retorno financeiro que possa cobrir as despesas ocorre quando o pa\u00eds que sedia tais atividades tem a capacidade de planejar adequadamente. Ao mesmo tempo, isso significa come\u00e7ar com um plano de desenvolvimento que venha de fato a ser implantado, independente da possibilidade de o pa\u00eds sediar o evento ou n\u00e3o. \u00c9 muito importante que os organizadores tenham esse conceito imbu\u00eddo desde o come\u00e7o, e esse deve ser o ponto de partida. Desta forma, o pa\u00eds escolhido deve determinar at\u00e9 que ponto sediar a Copa do Mundo ou as Olimp\u00edadas pode complementar e apoiar o plano de desenvolvimento original que j\u00e1 estava em curso. De fato, a maioria dos pa\u00edses n\u00e3o tem feito isso e, por conseguinte, est\u00e1 condenada a fracassar. Na verdade, muitos destes pa\u00edses n\u00e3o t\u00eam um plano de desenvolvimento que tenha sido elaborado antes de serem escolhidos para sediar estas competi\u00e7\u00f5es. Em contrapartida, meramente almejam promover estes eventos a qualquer custo e est\u00e3o dispostos a seguir quase todas as diretrizes que s\u00e3o impostas. Em consequ\u00eancia disso, ao serem escolhidos para assumir tais responsabilidades, ficam \u00e0 merc\u00ea do que o COI e a FIFA lhes ditem. Perante tal situa\u00e7\u00e3o de subservi\u00eancia, o pa\u00eds acaba gastando bilh\u00f5es de d\u00f3lares que s\u00e3o completamente desperdi\u00e7ados e que, na verdade, poderiam ser de extrema import\u00e2ncia para muitos destes\u00a0\u00a0pa\u00edses que t\u00eam dificuldades econ\u00f4micas e problemas sociais. Acredito que o Brasil \u00e9 mais uma na\u00e7\u00e3o que se encontra \u00e0 merc\u00ea deste tipo de relacionamento prejudicial com essas duas entidades muito poderosas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Voc\u00ea poderia explicar as raz\u00f5es pelas quais voc\u00ea acredita que o Brasil se enquadra nessa categoria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Fico perplexo quando tomo conhecimento de que alguns dos planejamentos de transporte p\u00fablico envolvem, a t\u00edtulo de exemplo, uma rota de \u00f4nibus r\u00e1pida percorrendo o trajeto de Ipanema at\u00e9 a Barra. Qual \u00e9 o prop\u00f3sito dessa rota? Fica claro que essa rota visa meramente o transporte dos turistas da praia de Ipanema para a Vila Ol\u00edmpica. E com o exemplo descrito, \u00e9 evidente que a principal prioridade deste projeto \u00e9 atender os turistas que estar\u00e3o no pa\u00eds por um tempo muito curto durante este evento esportivo espec\u00edfico. Assim sendo, \u00e9 um total desperd\u00edcio de recursos. Qualquer plano a longo prazo que tenha maior import\u00e2ncia para o desenvolvimento das necessidades de transporte dos cidad\u00e3os brasileiros n\u00e3o \u00e9 uma prioridade. Eu acredito que o Brasil possui muitos problemas sociais que ainda n\u00e3o receberam a aten\u00e7\u00e3o devida. Al\u00e9m disso, os turistas estrangeiros est\u00e3o cada vez mais conscientes da viol\u00eancia e da repress\u00e3o que ocorrem em muitas das grandes cidades brasileiras. Os mesmos tamb\u00e9m ficaram muito mais a par da inefici\u00eancia e da corrup\u00e7\u00e3o em diversos setores governamentais, e eu n\u00e3o vejo como todos estes elementos possam gerar uma imagem positiva do pa\u00eds perante a comunidade internacional. E ainda, al\u00e9m de todas estas quest\u00f5es, h\u00e1 greves que est\u00e3o ocorrendo, bem como um movimento forte de protestos populares contra os gastos extravagantes resultantes de o Brasil sediar esses eventos. Portanto, eu tenho uma vis\u00e3o pessimista e n\u00e3o acredito que haja qualquer chance de que o sediamento desses eventos venha a afetar o Brasil de forma positiva. Nenhuma parte do processo de planejamento foi executada de forma eficaz, como se constata com os atrasos dos diversos projetos ainda em constru\u00e7\u00e3o. Existe a cren\u00e7a entre os pa\u00edses dos BRICS de que, ao sediar estes megaeventos esportivos, o seu status de pot\u00eancia mundial ser\u00e1 confirmado. De fato, n\u00e3o temos nenhuma prova de que isso tenha ocorrido com qualquer um dos pa\u00edses que sediaram tais eventos, e a verdade \u00e9 que esta cren\u00e7a \u00e9 um pouco rid\u00edcula e at\u00e9 mesmo pat\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Muitos dos governos que sediam megaeventos esportivos geralmente contratam institui\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, p\u00fablicas e privadas, para difundir pesquisas que apresentam um quadro favor\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o aos benef\u00edcios econ\u00f4micos trazidos para o pa\u00eds. Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre esses estudos e sobre a validade dos trabalhos produzidos por essas entidades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Desde o come\u00e7o, j\u00e1 se estabelece um acordo problem\u00e1tico quando a ag\u00eancia que sedia os eventos emprega uma empresa de consultoria para fazer um estudo que n\u00e3o possui qualquer fundamento objetivo. Em tais casos, a maior parte desses estudos est\u00e1 sendo financiada para chegar a uma determinada conclus\u00e3o, que \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o do evento. Fica, portanto, muito claro que os pa\u00edses que sediam estes eventos empregam diversas pessoas para realizar estudos que demonstrem seus benef\u00edcios econ\u00f4micos. Na verdade, as conclus\u00f5es dessas pesquisas s\u00e3o demasiadamente otimistas e irreais. Houve at\u00e9 um caso em Londres onde um conhecido meu, que \u00e9 economista, recebeu, antes das Olimp\u00edadas, uma proposta da comiss\u00e3o organizadora de Londres para fazer um estudo sobre o impacto econ\u00f4mico do evento. O comit\u00ea havia afirmado que antecipava severas cr\u00edticas da opini\u00e3o p\u00fablica aos gastos econ\u00f4micos que poderiam decorrer dos jogos e que, portanto, queria ter a capacidade de responder a tais cr\u00edticas com um estudo que mostrasse seus benef\u00edcios econ\u00f4micos. Na verdade, esse exemplo que acabei de dar \u00e9 muito comum nos diversos locais que sediaram estes eventos esportivos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Quais s\u00e3o alguns dos problemas da metodologia empregada por parte dos estudos feitos por economistas contratados para apontar quadros econ\u00f4micos favor\u00e1veis decorrentes da responsabilidade de sediar tais eventos?\u00a0\u00a0Voc\u00ea poderia apontar alguns artif\u00edcios ou t\u00e9cnicas utilizadas por eles a fim de projetar um quadro econ\u00f4mico favor\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Estes pesquisadores fazem proje\u00e7\u00f5es com um n\u00famero excessivo de turistas frequentando tais eventos esportivos, que est\u00e3o fora da realidade. Tamb\u00e9m estimam que os mesmos turistas gastar\u00e3o muito mais dinheiro do que de fato ocorre, e depois empregam um multiplicador inflado irreal. Desta forma, eles acabam obtendo resultados que apontam para um maior impacto econ\u00f4mico, mas que n\u00e3o s\u00e3o reais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Quais s\u00e3o os incentivos que est\u00e3o por tr\u00e1s da pesquisa conduzida por alguns economistas como voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0O nosso maior objetivo e incentivo \u00e9 simplesmente descobrir qual \u00e9 o impacto econ\u00f4mico de tais eventos, seja ele\u00a0positivo ou negativo, em vez de tentar incutir um resultado qualquer. Estamos apenas tentando entender a din\u00e2mica da situa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o estamos sendo pagos por nenhum lado para chegar a uma conclus\u00e3o especifica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Novos est\u00e1dios foram constru\u00eddos em Bras\u00edlia, Cuiab\u00e1 e Manaus. Algumas destas cidades n\u00e3o possuem grande tradi\u00e7\u00e3o futebol\u00edstica e sequer t\u00eam equipes na primeira divis\u00e3o ou uma base significativa de torcedores. Estes fatos aumentam a preocupa\u00e7\u00e3o de que algumas dessas constru\u00e7\u00f5es se tornem elefantes brancos. Voc\u00ea poderia comentar sobre esta quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Sim. Estou ciente de que algumas dessas cidades n\u00e3o t\u00eam sequer uma equipe na primeira ou na segunda divis\u00e3o. Eu realmente n\u00e3o entendo por que algu\u00e9m iria construir um est\u00e1dio com capacidade para 42.000 espectadores em uma cidade onde n\u00e3o h\u00e1 grandes times de futebol e que, para come\u00e7o de hist\u00f3ria, ao longo de um determinado ano n\u00e3o ir\u00e1 nem mesmo atrair 1.000 ou 2.000 espectadores por cada jogo. Por que esses est\u00e1dios ultramodernos est\u00e3o sendo constru\u00eddos com cadeiras cativas, camarotes, espa\u00e7os excessivos para publicidade e vesti\u00e1rios luxuosos? N\u00e3o h\u00e1 nenhuma justificativa e n\u00e3o faz sentido gastar centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares em alguns desses est\u00e1dios, quando durante a maior parte do tempo ningu\u00e9m vai fazer uso deles. O contribuinte ter\u00e1 de arcar por v\u00e1rios anos com os custos desses megaprojetos e com os custos operacionais envolvidos em manter esses est\u00e1dios funcionando no seu dia-a-dia, ap\u00f3s o t\u00e9rmino das Olimp\u00edadas e da Copa do Mundo. E esse dinheiro nunca mais ser\u00e1 recuperado. Eu acredito que isso ser\u00e1 um problema que muitas cidades, como Cuiab\u00e1, Manaus, Bras\u00edlia, e outras ter\u00e3o de enfrentar. \u00c0s vezes, confuso e sem entender, fico tentando compreender o que alguns desses planejadores estavam pensando quando esses projetos come\u00e7aram a vir \u00e0 tona.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Muitos jogos acontecer\u00e3o em localidades distantes e o custo de viajar dentro do Brasil \u00e9 alto. Qual ser\u00e1 o impacto disso para o turismo e para essas cidades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Viajar pelo Brasil \u00e9 muito caro. Eu suponho que muitos dos turistas v\u00e3o viajar e se concentrar somente na regi\u00e3o sudeste do pa\u00eds, Rio e S\u00e3o Paulo. Eu n\u00e3o acho que eles v\u00e3o viajar por todo o pa\u00eds. Mesmo que esses turistas visitem outras localidades, n\u00e3o est\u00e1 claro se eles ajudar\u00e3o o turismo a longo prazo. De certa forma, os turistas de esportes s\u00e3o um grupo peculiar, que realmente n\u00e3o presta muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s atra\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas ou culturais, e geralmente se concentra exclusivamente nos seus eventos esportivos preferidos. A constru\u00e7\u00e3o dos est\u00e1dios em alguns desses lugares foi uma estrat\u00e9gia mal concebida. Se o pa\u00eds tivesse realmente um plano s\u00f3lido para a Copa do Mundo e se estivesse interessado em reduzir custos, deveria ter se focado em fazer melhorias em est\u00e1dios j\u00e1 existentes nos mercados de esportes de maior import\u00e2ncia do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, se tivessem limitado os jogos da Copa dentro dessa regi\u00e3o, o custo de viajar pelo pa\u00eds ficaria muito mais em conta e o clima seria certamente mais favor\u00e1vel para as partidas de futebol.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Quem realmente se beneficia com o sediamento desses megaeventos esportivos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0Eu acho que as empresas de constru\u00e7\u00e3o e seus aliados s\u00e3o os principais beneficiados. Outros elementos que se beneficiam destes megaeventos s\u00e3o alguns bancos de investimento que flutuam os t\u00edtulos para financiar esses projetos e, \u00e9 claro, os burocratas que lidam com muitos dos contratos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: E o que voc\u00ea tem a dizer sobre o exemplo dos Estados Unidos e da Alemanha, que sediaram megaeventos esportivos bem-sucedidos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0No caso de Los Angeles, as Olimp\u00edadas n\u00e3o foram muito dispendiosas. Eles s\u00f3 tiveram que construir algumas instala\u00e7\u00f5es, e o diretor das Olimp\u00edadas de Los Angeles, Peter Ueberroth, obteve das empresas privadas o dinheiro para construir as instala\u00e7\u00f5es, e com isso n\u00e3o tiveram que usar dinheiro p\u00fablico. Peter Ueberroth tamb\u00e9m introduziu um novo modelo para adquirir recursos dos setores privados para patroc\u00ednios, que foi considerado muito bem-sucedido, e acho que a combina\u00e7\u00e3o desses fatores fez com que eles fossem capazes de gerar um pequeno excedente, algo em torno de 215 milh\u00f5es de d\u00f3lares decorrentes dos jogos de 1984. Quanto \u00e0 Copa do Mundo na Alemanha, pode ter havido um pequeno efeito positivo em determinadas regi\u00f5es que sediaram as partidas, principalmente no que diz respeito ao emprego, mas n\u00e3o no que diz respeito ao valor da massa salarial. E isso se deu principalmente pelo fato de eles terem feito uso de instala\u00e7\u00f5es que j\u00e1 existiam. Assim sendo, n\u00e3o foi necess\u00e1rio fazer quaisquer investimentos significativos em termos de infraestrutura.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre o caso de Barcelona, que \u00e9 apontado por muitos como um exemplo de sucesso e de como tais eventos podem trazer benef\u00edcios econ\u00f4micos para uma cidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0As Olimp\u00edadas tiveram uma pequena contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento de Barcelona, por\u00e9m de nenhuma maneira podemos dizer que a contribui\u00e7\u00e3o foi significativa ou que o renascimento da cidade foi ocasionado por ter recebido tal evento. Uma s\u00e9rie de outros fatores, tais como a entrada da Espanha no mercado comum da Uni\u00e3o Europeia e a desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor a\u00e9reo, tamb\u00e9m contribu\u00edram para o progresso da cidade. Tamb\u00e9m \u00e9 importante observar que o crescimento econ\u00f4mico de Barcelona foi semelhante ao de outras cidades europeias durante o per\u00edodo posterior \u00e0s Olimp\u00edadas. Al\u00e9m disso, Barcelona j\u00e1 tinha algumas &#8220;cartas na manga&#8221; que n\u00e3o haviam sido exploradas pelo turismo, mas que estariam prontas depois de um pouco de trabalho. Devemos tamb\u00e9m levar em considera\u00e7\u00e3o alguns fatos hist\u00f3ricos sobre a cidade. Por exemplo, Barcelona, bem como toda a \u00e1rea da Catalunha, havia sido amplamente negligenciada durante a ditadura de Franco, e a regi\u00e3o estava pronta para conseguir alguma esp\u00e9cie de desenvolvimento ap\u00f3s a sua morte, especialmente a parte da cidade que se encontrava separada do mar por uma \u00e1rea de armaz\u00e9ns, f\u00e1bricas e ferrovias. De fato, entre muitas iniciativas no grande plano para mudar Barcelona, que teve in\u00edcio no final dos anos 70, havia o projeto de abri-la para o mar. Esse plano j\u00e1 tinha sido tra\u00e7ado antes das Olimp\u00edadas, e quando a cidade ganhou o direito de sediar os Jogos Ol\u00edmpicos, os planejadores fizeram as necessidades do evento ol\u00edmpico complementarem as necessidades do plano que j\u00e1 estava em curso. Assim sendo, os Jogos Ol\u00edmpicos foram feitos para cooperar com esse plano e trazer benef\u00edcios para a cidade, e n\u00e3o para a cidade cooperar com as Olimp\u00edadas. Portanto, a din\u00e2mica dessa rela\u00e7\u00e3o, caracterizada pelo fato de Barcelona j\u00e1 ter um plano de desenvolvimento anos antes de ter sido escolhida para sediar os Jogos Ol\u00edmpicos, foi de extrema import\u00e2ncia para seu progresso. Na verdade, poucas cidades que sediam esses eventos t\u00eam um plano de desenvolvimento preexistente, como o que foi exibido l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Em um de seus artigos, voc\u00ea mencionou que os organizadores brasileiros haviam desistido da ideia da cria\u00e7\u00e3o de um novo terminal no aeroporto internacional de S\u00e3o Paulo antes da Copa do Mundo e que, como alternativa, iriam contar com m\u00f3dulos tempor\u00e1rios para lidar com um maior n\u00famero de turistas. Voc\u00ea advertiu que tais a\u00e7\u00f5es eram exatamente o que os pa\u00edses que sediam tais eventos precisavam evitar. Voc\u00ea poderia explicar sua opini\u00e3o sobre esta quest\u00e3o para os nossos leitores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Andrew Zimbalist:<\/strong>\u00a0O ponto crucial nesta quest\u00e3o \u00e9 que quando se est\u00e3o gastando centenas de milh\u00f5es ou bilh\u00f5es de d\u00f3lares para construir uma infraestrutura para tais eventos, deseja-se que ela seja duradoura e que tenha utilidade ap\u00f3s o t\u00e9rmino dos mesmos. Se forem constru\u00eddos m\u00f3dulos tempor\u00e1rios, ent\u00e3o eles n\u00e3o v\u00e3o ter qualquer utilidade ap\u00f3s a conclus\u00e3o dos eventos e ser\u00e3o removidos. Portanto, tem-se a despesa de mont\u00e1-los, a despesa do material envolvido na constru\u00e7\u00e3o dos m\u00f3dulos e o custo para desmont\u00e1-los, e no final n\u00e3o se fica com nada. \u00c9 um exemplo n\u00edtido do desperd\u00edcio dos recursos p\u00fablicos e um grande exemplo da falta de planejamento adequado. Acredito que deveria haver um planejamento pr\u00e9vio e com prazo suficiente para que as coisas pudessem ser feitas da maneira certa, evitando assim uma situa\u00e7\u00e3o em que se tenha de arquitetar m\u00f3dulos provis\u00f3rios que eventualmente n\u00e3o ter\u00e3o qualquer utilidade. Em suma, toda a infraestrutura de transporte que est\u00e1 sendo constru\u00edda deveria ter utilidade a longo prazo, para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. M\u00f3dulos tempor\u00e1rios economizam recursos a curto prazo, porque n\u00e3o se est\u00e3o edificando estruturas permanentes, mas o investimento financeiro para constru\u00ed-los \u00e9 completamente desperdi\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog: Segundo o Professor Zimbalist,\u00a0quando Atenas ganhou, em 1997, o direito de sediar os Jogos Ol\u00edmpicos de 2004, seu or\u00e7amento foi estimado em cerca de 1,6 bilh\u00e3o de d\u00f3lares e o custo p\u00fablico final foi calculado em torno de 16 bilh\u00f5es (aproximadamente dez vezes mais do que o n\u00famero original). Podemos observar esta mesma tend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s proje\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias em outros locais que j\u00e1 sediaram esses eventos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Robert Baade:<\/strong>\u00a0Sim, em todos os lugares. Os jogos de Atenas seguiram a norma, sendo este, de fato, o exemplo mais t\u00edpico do que acontece com esses eventos. As proje\u00e7\u00f5es imprecisas relacionadas ao custo de sediar megaeventos esportivos s\u00e3o end\u00eamicas, e as estimativas dos custos iniciais s\u00e3o lamentavelmente subestimadas na maioria das vezes. Quando eu comecei a estudar as Olimp\u00edadas de Atenas, o or\u00e7amento para a seguran\u00e7a estava em torno de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares. No momento em que paramos de acompanhar o or\u00e7amento, ele chegou a cerca de 1,9 bilh\u00e3o de d\u00f3lares, e isso era apenas para a seguran\u00e7a. O Brasil vai enfrentar situa\u00e7\u00e3o parecida. O pa\u00eds tem trabalhadores em greve, v\u00e1rios atrasos nas constru\u00e7\u00f5es de infraestruturas, transtornos judiciais, entre outros problemas que ir\u00e3o aumentar significativamente os custos. Parafraseando um famoso fil\u00f3sofo, eu diria que a \u00fanica coisa imut\u00e1vel dentro deste universo dos megaeventos \u00e9 a aus\u00eancia de mudan\u00e7a. Essas mudan\u00e7as resultam invariavelmente em custos mais elevados do que os estimados pelas previs\u00f5es iniciais. Se a experi\u00eancia no Brasil seguir a norma, haver\u00e1 uma grande probabilidade de que o custo financeiro para sediar estes eventos venha a ser muito maior e mais duradouro do que o que foi inicialmente previsto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog:\u00a0Existe o risco de um pa\u00eds ter sua imagem afetada ou desgastada internacionalmente ao sediar tais eventos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Robert Baade:<\/strong>\u00a0Sim. E essa possibilidade \u00e9 real para qualquer pa\u00eds que decida sediar tais atividades. Um devido pa\u00eds tanto pode ser identificado como eficiente e capaz ou como desorganizado e ineficiente. Tudo depende de como as coisas ir\u00e3o fluir durante os eventos. No entanto, se as coisas n\u00e3o acontecerem como foram planejadas e se ocorr\u00eancias negativas ou lament\u00e1veis se tornarem frequentes e divulgadas pela imprensa, ent\u00e3o a imagem do pa\u00eds poder\u00e1 realmente ser afetada de forma negativa, em vez de ser fortalecida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog:\u00a0E na sua opini\u00e3o, isso representa um risco para o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Robert Baade:<\/strong>\u00a0Sim. A situa\u00e7\u00e3o brasileira, com todos os seus atrasos no acabamento de diversas obras, me faz lembrar do que aconteceu nas Olimp\u00edadas de Atenas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog:\u00a0Foi divulgado pela imprensa internacional que 21 das 22 estruturas constru\u00eddas para as Olimp\u00edadas de Atenas encontram-se numa situa\u00e7\u00e3o extremamente prec\u00e1ria e n\u00e3o t\u00eam qualquer utilidade. Fazendo uma retrospectiva da hist\u00f3ria, qual \u00e9 o destino mais prov\u00e1vel para as diversas estruturas esportivas\u00a0 constru\u00eddas em outras cidades que sediaram megaeventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas? Ser\u00e1 que o exemplo do que ocorreu em Atenas \u00e9 o mais comum?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Robert Baade:<\/strong>\u00a0Sim. De fato, algumas das estruturas esportivas em Atenas se encontram em ru\u00ednas, de modo que grande parte das\u00a0\u00a0instala\u00e7\u00f5es esportivas s\u00e3o pouco utilizadas ap\u00f3s os eventos. Assim sendo, o potencial para se tornarem elefantes brancos \u00e9 um risco grande e real. Antes de serem escolhidas para sediar as Olimp\u00edadas e a Copa do Mundo, Los Angeles e a Alemanha n\u00e3o tiveram que lidar com esse problema porque j\u00e1 tinham a maior parte destas estruturas prontas para sediar tais eventos. Atenas se encontra na pior situa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, pois tiveram que construir est\u00e1dios nos quais os gregos tinham pouco ou nenhum interesse, e os custos para que a Gr\u00e9cia possa manter tais estruturas ainda s\u00e3o significativos. O est\u00e1dio\u00a0<em>Birds Nest<\/em>\u00a0em Beijing tamb\u00e9m est\u00e1 perto de se tornar um elefante branco. A constru\u00e7\u00e3o do est\u00e1dio Ol\u00edmpico de Montreal \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de uma estrutura que n\u00e3o foi utilizada adequadamente ap\u00f3s os jogos. Al\u00e9m disso, levou 30 anos para os canadenses pagarem a d\u00edvida que acumularam em decorr\u00eancia de terem sediado as Olimp\u00edadas. Na verdade, uma das maiores consequ\u00eancias desses megaeventos esportivos s\u00e3o os est\u00e1dios e as arenas que foram constru\u00eddas com um alto custo e que t\u00eam pouca utilidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog:\u00a0E o problema dos elefantes brancos na \u00c1frica do Sul?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Robert Baade:<\/strong>\u00a0O sediamento da Copa do Mundo na \u00c1frica do Sul seguiu um caminho j\u00e1 muito conhecido. A liga\u00a0<em>premier<\/em>\u00a0de futebol daquele pa\u00eds tem por m\u00e9dia 7,500 espectadores por partida. Assim sendo, n\u00e3o havia nenhuma necessidade de se ter constru\u00eddo est\u00e1dios com as capacidades que foram determinadas pela FIFA. Os cinco novos est\u00e1dios constru\u00eddos para a Copa do Mundo de 2010 na \u00c1frica do Sul custaram cerca de 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares. Os est\u00e1dios\u00a0<em>Peter Mokaba<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Nelson Mandela<\/em>\u00a0foram constru\u00eddos com cerca de 150 e 140 milh\u00f5es de d\u00f3lares respectivamente. Eles s\u00e3o utilizados esporadicamente para jogos de futebol e de r\u00fagbi. O est\u00e1dio Mandela, por exemplo, acolheu 12 partidas em 2013, com uma m\u00e9dia de 7,606 espectadores (o que representa 16.5% da capacidade do est\u00e1dio). Paralelamente, o est\u00e1dio\u00a0<em>Mokaba<\/em>\u00a0n\u00e3o possui nenhum inquilino ou seja, ningu\u00e9m se interessou em arrendar tal est\u00e1dio. Ser\u00e1 que faz algum sentido construir um est\u00e1dio de 150 milh\u00f5es de d\u00f3lares num lugar em que n\u00e3o existe sequer um time de futebol para fazer uso de tal infraestrutura ap\u00f3s o t\u00e9rmino da Copa? Exemplos parecidos com estes existem em toda a parte.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog:\u00a0Voc\u00ea acredita ser prov\u00e1vel que o problema dos elefantes brancos na \u00c1frica do Sul e na Gr\u00e9cia possa vir a acontecer no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Robert Baade:<\/strong>\u00a0Eu acho que o que est\u00e1 acontecendo no Brasil faz lembrar muito a situa\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia e da \u00c1frica do Sul, onde a s\u00edndrome do elefante branco \u00e9 clara e real. Chegou ao meu conhecimento que o Brasil construiu est\u00e1dios de futebol em algumas cidades que n\u00e3o possuem equipes nem na primeira, nem na segunda divis\u00e3o de futebol do pa\u00eds. Construir est\u00e1dios novos em Cuiab\u00e1, Manaus e Bras\u00edlia, ou seja, em cidades que possuem um papel insignificante dentro do contexto futebol\u00edstico nacional, n\u00e3o faz sentido nenhum. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que estes est\u00e1dios n\u00e3o tenham grande utilidade ap\u00f3s o t\u00e9rmino da Copa e que possivelmente estejam a caminho de se tornarem elefantes brancos ap\u00f3s o evento.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Pergunta Blog:\u00a0Em suma, qual ser\u00e1 o legado econ\u00f4mico ou as consequ\u00eancias para o Brasil por sediar estes eventos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Robert Baade:<\/strong>\u00a0Estou esperan\u00e7oso que o povo brasileiro possa se beneficiar ao sediar a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas. No entanto, ap\u00f3s fazer uma avalia\u00e7\u00e3o cautelosa sobre a situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estou muito otimista que haja um legado positivo decorrente destas atividades. Na verdade, existe o risco de haver um balan\u00e7o negativo no final. De fato, observamos que a coes\u00e3o social do pa\u00eds tem sido desgastada por fatores econ\u00f4micos relacionados com os eventos. Al\u00e9m disso, fica claro que existe uma enorme press\u00e3o nos jogadores da sele\u00e7\u00e3o nacional. Se a equipe n\u00e3o for bem ou n\u00e3o corresponder \u00e0s expectativas, a chance de um legado negativo ocorrer aumentar\u00e1. Dificilmente tais eventos acarretar\u00e3o algum tipo de benef\u00edcios econ\u00f4micos para o Brasil e estou muito preocupado com a forma como o pa\u00eds ir\u00e1 utilizar essas estruturas esportivas constru\u00eddas para receber esses eventos. Eu creio que a desconfian\u00e7a dos brasileiros em rela\u00e7\u00e3o aos seus governantes s\u00f3 ir\u00e1 aumentar ao chegarem \u00e0 conclus\u00e3o de que estas atividades beneficiar\u00e3o apenas uma parcela muito pequeno da popula\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um risco real e espero que o Brasil possa passar por este momento sem problemas. Portanto, eu tor\u00e7o pelo Brasil e pela sele\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/esportes\/ricardo-guerra\/olimpiadas-e-copa-do-mundo-o-que-estao-fazendo-com-o-dinheiro-dos-brasileiros\/\"><em><strong>Fonte: https:\/\/www.estadao.com.br\/esportes\/ricardo-guerra\/olimpiadas-e-copa-do-mundo-o-que-estao-fazendo-com-o-dinheiro-dos-brasileiros\/<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestas duas entrevistas, os professores Andrew Zimbalist e Robert Baade, respectivamente, falam em detalhe sobre o real impacto econ\u00f4mico das Olimp\u00edadas e da Copa do Mundo no Brasil e os resultados em diversos pa\u00edses que j\u00e1 foram sede destes eventos. 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